Há mais de um século, as rádios de poste dão voz às comunidades. Até quando esse patrimônio ficará sem regulamentação em Feira de Santana?
Enquanto Salvador regulamentou as rádios alternativas de linha modulada, conhecidas como rádios de poste, ainda em 2013, por meio de uma lei municipal que estabeleceu critérios para seu funcionamento, Feira de Santana ainda convive com a ausência de uma legislação específica que ofereça segurança jurídica a um dos mais tradicionais meios de comunicação popular da Bahia.
As adequações realizadas pela Neoenergia Coelba na rede elétrica são necessárias para garantir a segurança do sistema. No entanto, a retirada de equipamentos durante essas intervenções tem prejudicado o funcionamento de diversas rádios de poste, interrompendo um serviço que há mais de um século faz parte da história de Feira de Santana e de seus distritos.
Muito antes da internet, da televisão e das redes sociais, as rádios de poste já levavam informação, avisos de utilidade pública, campanhas comunitárias, programação cultural, mensagens religiosas e anúncios de interesse coletivo. Ao longo das décadas, tornaram-se um dos mais importantes instrumentos de comunicação popular, especialmente nos bairros e distritos.
Em Humildes, esse serviço existe há mais de 80 anos e se tornou parte da identidade da comunidade. Um dos grandes nomes dessa história foi Juca Marques, que dedicou mais de 30 anos à comunicação por meio da rádio de poste, conquistando o respeito e o reconhecimento da população pelo trabalho prestado.
Atualmente, esse legado é mantido por Nailton Santana, que preservou a tradição da comunicação comunitária e a modernizou ao integrar a rádio de poste ao Portal Humildes Online, às transmissões pela internet e às redes sociais. Essa evolução permitiu que um serviço centenário continuasse acompanhando as transformações tecnológicas, sem perder sua missão de servir à população.
Além da divulgação de notícias, a rádio de poste continua sendo um importante instrumento de cidadania. Por meio dela são realizadas campanhas para arrecadação de alimentos, doação de sangue, divulgação de documentos perdidos, pedidos de ajuda para tratamentos de saúde, campanhas solidárias, valorização da cultura local, divulgação de eventos esportivos e comunicação de interesse público.
Por isso, cresce a necessidade de que Feira de Santana abra um amplo debate sobre a regulamentação desse serviço. Câmara Municipal, Prefeitura, Assembleia Legislativa da Bahia, deputados estaduais e federais, Ministério Público, representantes das rádios comunitárias e a Neoenergia Coelba precisam construir um diálogo que concilie a segurança da rede elétrica com a preservação de um patrimônio histórico da comunicação popular.
Salvador mostrou, desde 2013, que é possível estabelecer regras para garantir o funcionamento das rádios de poste de forma organizada e segura. Feira de Santana também precisa discutir esse tema.
As rádios de poste não representam apenas equipamentos instalados em postes. Elas representam memória, cultura, solidariedade, prestação de serviço e cidadania. São um patrimônio da comunicação popular que atravessou gerações e continua cumprindo um papel essencial na vida de milhares de pessoas.
Valorizar esse serviço é preservar uma parte importante da história de Feira de Santana e garantir que essa voz comunitária continue ecoando pelas próximas gerações.
